segunda-feira, 19 de setembro de 2016

Na livraria Lello com a minha amiga polaca!

"Os optimistas acreditam que este mundo é o melhor possível, ao passo que os pessimistas suspeitam que os optimistas podem estar certos... (...)Existe uma terceira categoria: pessoas com esperança !"
         Zygmunt Bauman
Ter uma amiga a visitar-me e pela primeira vez  no Porto é um duplo privilégio, pessoal e turístico,  pois tenho a oportunidade de a levar a conhecer a cidade, de ser a sua guia e de a conduzir pelos recantos da invicta. 
Comecei como boa anfitriã pela livraria Lello, a casa mãe dos escritores, ex-libris obrigatório de visita. Primeiro olhar sobre a beleza inconfundível da fachada neogótica com as suas duas pinturas, a arte e a ciência a ladearem a entrada. Depois da fila e de bilhete comprado entramos e somos de imediato engolidas pela multidão de turistas e pelo ruído poli linguístico. Estamos na editora de Eça de Queirós, Camilo de Castelo Branco, Antero de Quental e tantos outros grandes escritores admirados e publicados pelos irmãos unidos, António e José Lello os burgueses intelectuais que ainda em finais de séc. XIX (1894) compraram a antiga livraria Chardron com todo o seu espólio e começam a intervir no desenvolvimento cultural da cidade publicando as primeiras edições com a colaboração dos artistas plásticos republicanos que emergiam nessa altura.
 Estavam  certamente longe de imaginar que dois séculos depois a sua livraria se transformaria numa das mais reconhecidas em todo o mundo. Longe de imaginar os milhares de turistas a subirem a escadaria de carmim.
E aqui estamos nós a percorrer o palácio da memória. ...folheamos juntas livros e recordamos a nossa primeira feira do livro no Colégio em Luanda. A Natália foi o meu braço direito, podia dormir descansada pois, a área administrativa e financeira estava em boas mãos. Trabalhamos em conjunto e sempre nos demos bem, porque punhamos toda a nossa experiência e profissionalismo naquilo que fazíamos. É a isso que se chama dignidade no trabalho. Decus in labore, a insígnia que se vê entrelaçada no monograma no belíssimo vitral da Lello.
Este vitral que nunca tinha sido retirado até  aos finais de julho e que foi todo limpo e reabilitado a primeira vez para o lançamento mundial de "Harry Potter and the cursed child", a festa em que a Lello também participou.
É  fantástico estarmos aqui as duas, de novo, entre livros, afinal no nosso mundo.
 Falamos de histórias e de autores, escolhemos livros para as meninas, ainda posso ajudar a seleccionar algumas gramáticas de português para estrangeiros. Na Polónia há muitos interessados em aprender português, a Natália fala bem a língua, é só melhorar e poderá vir a ser tradutora como quer. Não tenho dúvidas que será uma boa tradutora.
Tal como o sociólogo polaco disse, somos pessoas com esperança!  E não fazemos parte da massa de consumo que só é capaz de manter relações líquidas! Até podemos pertencer ao grupo das excepções, e mesmo agora no mesmo continente mas separadas por alguns quilómetros de distância, somos ambas viciadas nas novas tecnologias e sabemos bem que com um click nos manteremos próximas.

saímos da Lello  mais felizes e pesadas. 
Agora  vamos calcorrear as ruas aos risos. Bem-vinda à cidade do Porto !!!






sexta-feira, 16 de setembro de 2016

Mercado do bom sucesso, eclairs....ou o melhor doce que o porto tem!....a pensar em ti amiga Isabel!

No  amor podemos substituir  uma pessoa  por outra, mas não  na amizade,
Porque  cada amigo tem  o seu  lugar e não  podemos substitui-lo.
    António  Lobo Antunes


Dia de chuva no porto, dia cinzento a pedir abrigo. Rumo ao Mercado do Bom Sucesso.
Por aqui perde-se o tempo, há  sempre pessoas e coisas diferentes,  e viajamos  por todo o país  através  dos sabores e das cores de cada região.
Por  aqui no norte já  começa  o frio, quando os trópicos  aquecem. Lembro-me de Angola  , do cheiro intenso da terra alaranjada  e das cores quentes. E sinto saudades,  é um  facto.  Sobretudo das pessoas  e de uma em especial, a minha amiga Isabel.
 Uma  daquelas  mulheres feitas de fibra e coragem, daquelas com quem rimos e choramos de um modo espontâneo, que não  douram pílulas,  mas que atiram as palavras certeiras, mesmo as mais duras de ouvir. Mulheres do norte, claro está!
Quis  a vida nos seus ramos por vezes inexplicáveis,  colocar-nos  no mesmo caminho! Em boa hora!

Durante o meu tempo de expatriada  foi a minha confidente, o ombro e o porto de abrigo nas horas duras de saudade, o empurrão  para a luta num quotidiano por vezes difícil,  a companheira das gargalhadas  e das vivências  mais genuínas. 
 vivemos no "MULEMBA RESORT " peripécias  que a memória  não  apagará.  Aliás,  "D. Isabella" como o  nosso  amigo francês  lhe chamava, era a alma ( e o general, diga-se a bem da verdade) da Mulemba.  E a D. Isabella  todos prestavam  vassalagem.  Tipo Branca de Neve e seus sete anões. Estão  a ver o filme?!   Sim, que na Mulemba  tínhamos o dengoso, o atchim, o feliz, o mestre, o zangado, o dunga e o sonecas. Eheheh...uns autênticos  cromos, todos sempre prontos a agradar a loura branca!; Na  verdade nada fazíamos  sem a sua aprovação,  ou pelo menos sem  a sua conivência.  E até  os menus tinham de ser do agrado da dama ( de ferro). E isso implicava sempre um prato farto, um vinho de categoria e  um  bom docinho ( ou vários. ...eheheh). 
 Por isso, agora se faz tão  presente o seu gosto tão  apurado, e, por aqui estaria nas suas " sete quintas". Ele há  marisco, bons vinhos, chás  para enfartamento, ervas e aromáticas  para qualquer tipo de maleita ou achaque, bom vinho para os brindes! Ah, e o melhor e mais famoso doce do Porto.

 Os  eclairs  da Leitaria  Quinta  do Paço.  
Aqueles que se desfazem na boca e que nos fazem lamber o chantili que se escorre e nos lambusa  o canto da cara.. E D. Isabella  lambona teria dificuldade em escolher: entre o tradicional de chocolate, o de caramelo, de frutos vermelhos, de chocolate branco, de café.  Ou de limão  para os dias mais azedos. Ui, e os de maracujá,  perfeição  agridoce. 


Só  nos imagino por aqui as duas a pavonear, cedendo a tão  irresistíveis  tentações  e a matarmos  o tempo e a distância à  velocidade galopante de quem come estes mini eclairs,  que é  o mesmo que dizer, de uma única  e intensa dentada! 
Amiga,  estou por aqui, no Porto, aparece quando quiseres, mas, vem! Vem só,  yah?!

quinta-feira, 15 de setembro de 2016

Graffitis ou a comunicabilidade na cidade!

Gosto de deambular  pela cidade. A pé  ou de carro, gosto de observar as mudanças,  o que flui, aquilo que se vai transformando.
Muitas vezes deparo-me com muros e fachadas grafitados. Gosto. Demoro-me a olhar, tento perceber a mensagem ou fico só  a admirar a criatividade.
Felizmente  vão  longe os tempos em que estes writers rabiscavam um chorrilho  de palavras mal amanhadas, mensagens negritadas, apenas.
Hoje há  mesmo espaços  criados para o efeito, muros que são  dados para livremente alguém  os potenciar. Pelo  Porto há  vários  desses espaços,  fachadas de prédios  que aguardam demolição  ou uma intervenção,  paredes cinzentas e degradadas que se vestem de cores e da imaginação  dos que abraçam  a street art. Há  até  alguns com nome como o mural da Leonesa.
E com muita expressividade! Mensagens  que articulam tradições,  costumes e símbolos  com uma nova apropriação. 

E a cidade  ganha vida! Afinal os medos, as conquistas, os anseios, os desejos fazem parte desse jogo identitário  que é  tão  próprio  de cada lugar.

Esta  forma de expressão  tão  fugaz e tão  viva está  tão  presente nas cidades europeias. E deixa marcas, traços na memória.  Quem já  teve oportunidade de admirar o mural que restou do muro de Berlim, não  esquece.  E é  tão  importante essa memória,  sobretudo agora que se fala em erguer novos muros. Julgo que deviam fazer uma visita guiada a certos políticos  a estes lugares, talvez aprendessem alguma coisa, pelo menos a terem um pouco mais de bom-senso e tolerância.  Talvez chegasse! E passear por Bruxelas com o Tim  Tim em tamanho XXXL Ou ver as paredes de museus londrinos grafitadas. Bem mais interessante do que ver a cidade a degradar-se.

Admiro  e fico grata aos que têm  coragem e criatividade para darem  cor às  paredes. E ainda bem que no Porto já  há  belos exemplares. Vale a pena procurar e olhar para  estes quadros inusitados  e inesperados. Amanhã  podem não  estar lá.


quarta-feira, 14 de setembro de 2016

Amigos, amigos, no tempo dos figos!

-Verdes figueiras  Soluçantes nos caminhos!
Vos sois odiadas desde os  seculos avós
Em vossos galhos nunca as aves fazem ninhos
Os noivos fogem de se amar ao pé  de vós !
    António  Nobre, Só

Aqui no quintal também  há  uma figueira. E é  bem querida por nós.  Talvez por isso, tem sido bem generosa connosco. Este Verão,  em particular.
Estava carregadinha, mas como vos disse esta noite choveu muito, também  fez vento.  Resultado, acabei a manhã  a apanhar figos! E ainda assim, a maioria já  estava no chão!

Quando há  abundância  há  que partilhar! Corri a vizinhança a distribuir  figos....eheheh. Por aqui quase todos têm  quintal. As senhoras mesmo já  bem entradas na idade gostam da terra e gostam também  de dar. Vim para casa com um molho de espinafres, salsa e ainda uma tigela de tomate cereja.
De facto, quem tem figos tem amigos.
Bem, mesmo dando às  vizinhas ainda sobejam  figos. Vou fazer doce de Figo.


Estou estafada. Manhã  nas lides hortícolas,  tarde na cozinha. Ainda tenho reunião  de pais no colégio  da B.



Não  se apoquentem, antes de me ir arranjar e sair, tenho de preparar mais duas covetes de figos para levar a duas mães  amigas. Ah, já  sei, também  tenho de vos deixar a receitinha do meu doce. Ok, aqui vai:
Doce de figo e gengibre
Ingredientes
- 1 kg de figos
- 600 grs. de  açúcar  amarelo
- 1 pau de canela
-1 colher de café  de gengibre em pó.
Lavam-se os figos, tira-se-lhes o pé,  partem-se em quatro pedaços.  Adiciona-se o açúcar,  a canela e o gengibre. Coloca-se tudo numa panela e vai ao lume, mais ou menos 45 min. De  quando em vez mexer com colher-de-pau.
 Por fim triturar  com a varinha mágica.
Agora é  só  encher os frascos e arrolhar bem.

Dica em relação aos frascos em relação  aos frascos
Esterilizam-se préviamente  numa panela com água  a ferver durante 10 min. Ainda quentes encher com o doce. Depois de bem apertada a tampa mergulha-los de cabeça  para baixo  num recipiente  com água  quente para criar vácuo.
Posso garantir-vos que faço  sempre assim com todos os doces e aguentam-se meses sem se estragarem. 

terça-feira, 13 de setembro de 2016

Noite de chuva, manhã na horta

Choveu toda a noite, pela manhã  sabia a terra fresca. As primeiras chuvas deixam este odor  a terra e feno. Já  tinha planeado esta manhã  ir tratar da horta. Com a terra molhada é  mais fácil  arrancar as ervas daninhas. Acrescentei composto e adubo biológico,  que serão  absorvidos mais facilmente. E em seguida dediquei-me às  plantações.

pelo meio das alfaces e a rodea-las plantei uns pés  de alho-francês.  E ao lado das acelgas pus umas beterrabas. Aqui em casa descobrimos o arroz de beterraba 
E adoramos aquela cor rosa vinho. O limoeiro  está  carregadinho e já  há  chuchus a crescer. Tudo em ordem.
Ainda  fui acrescentar composto aos morangueiros e às  aromáticas.  Hoje é  bom dia para trabalhar com a colaboração  da natureza. Já  choveu bem, está  tudo bem irrigado e o sol brilha...

 É  um bom ciclo e estamos em boa altura de preparar a terra para as plantações  de inverno.
 



Revisitar "A Árvore " porque os artistas não morrem...

Quando  ontem abri o jornal tive de ler a má  notícia  da morte do artista plástico  José  Rodrigues.
Ficámos  mais pobres, pensei subitamente.
E hoje não  podia deixar de revisitar a casa amarela , esse espaço  de liberdade do qual José Rodrigues  foi também  um dos fundadores.

De facto  o escultor tinha razão  "nem à  bomba (n)os arrancam daqui" . Os artistas são  seres fantásticos,  são  visionários  e conseguem deixar marcas... Criam um  outro mundo de possíveis e provocam-nos...

É  a ambiguidade,  o contraste, este jogo do quase  ver, de significantes que querem emergir...
 que torna a arte tão  nobre  quanto maltratada.  Pelo  menos, na maioria das instituições  e pessoas de poder. Mas,  isso  não  interessa nada, levaria  por caminhos  sinuosos  porque  nos impeliria a questionar a escola, a falta de importância  dada à  educação  da arte ou pelas artes, ao magro orçamento  que  é  destinado à  cultura,  enfim.... como diz  o meu amigo PPC  isso não  interessa nada.  Esta  luz, estas cores vivas e a ESBAP  é  que  fazem sentido,  porque sim!
Será  que o PPC  foi aluno de  José Rodrigues?  Tenho de perguntar-lhe. Ou talvez  já  o artista tivesse deixado de ser  professor nessa altura, talvez  já  tivesse sido depois de o  espantarem de tanto o chamarem de mestre. Sim, que  o escultor não  quis perder a sua autenticidade.  E  não  perdeu.! E sempre fiel aos materiais  dignos desse nome, a pedra e o metal. 
Ainda  bem que não  gostava do efémero! 
Felizmente  as suas obras serão eternas,  pelo menos as maiores, o espírito  desta cooperativa e a bienal de Vila Nova de Cerveira.  A menos que  um terramoto mental ou uma crise galopante de Alzheimer assolem as novas gerações  de artistas! ! ! ! 

domingo, 11 de setembro de 2016

Manhã nublada no Jardim do Passeio Alegre

Hoje é  Domingo. Mas  não  é  um domingo qualquer, é  dia 11 de setembro e há  15 anos a nossa segurança  foi questionada e desde aí  não  temos tido sossego. Estamos em sobressalto constante. A queda das Twin  Towers foi apenas o início  dos abalos que vivemos no ocidente.
E esta manhã  chegou cheia de nuvens para nos avivar a memória.  Por aqui no Porto,  nota-se bem que o tempo mudou, está  mais fresco. Decidi ir até  à  Foz  apetecia-me ler o jornal perto do mar. Mas,  entretanto ao passar pelo jardim  do Passeio Alegre apeteceu caminhar...
Este jardim romântico  de finais do século XIX  sabe a Raul Brandão. Certamente correu por estas bandas, estamos na foz. O largo dos pescadores fica mesmo  antes do jardim. E o rio fica ali do outro lado já  a roçar  o mar. 
O lago deve estar em manutenção,  vazaram a água,  sobressai o bronze!
E  o coreto que se vislumbra continua a servir de palco para concertos. Este Verão  não  me apercebi de nenhum, mas por aqui houve em Agosto as  festas de S. Bartolomeu. 

O caminho das palmeiras rivaliza com as frondosas  árvores  que se reviram e contorcem sob o olhar dos turistas  que ainda teimam em deter-se pelo Porto. E o chafariz de granito puxa-nos quase até  ao forte de S. João  Baptista. 
Importa  ainda referir  a construção  que serve agora de casa de banho com azulejos arte nova e louça  inglesa. Mesmo de burgueses. Aqui os passeios fazem sentir-nos mais antigos e tranquilos. Agora que a caminhada está  feita vou sentar-me calmamente a beber um café  e a folhear o jornal.