quinta-feira, 22 de setembro de 2016

Apanhar perpétuas roxas no Cantinho das Aromáticas

"(...)os olivais que nos cruzaram, ajoelhavam...Havia nuvens no ar que nos seguiam...
O vento...acompanhou-nos, veio deitado nas nuvens...os corvos seguiram-nos também. ..
E voavam entre eles as andorinhas (...)o ar...todo o ar cheirava a urze. "
         António Patrício,  Pedro, o cru.
Quando se entra no Cantinho das Aromáticas e olhamos a beleza da quinta com o pombal ao fundo, não é difícil imaginar Pedro e Inês apaixonados a correrem para se esconderem na construção circular de pedra...o Amor proibido que constitui uma das mais belas ( e trágicas) histórias da nossa própria História, o amor entre D. Pedro e D. Inês de Castro, cruza-se com a quinta onde desde 2002 se encontra este promissor projecto do Cantinho das Aromáticas cuja história pode encontrar aqui http://www.cantinhodasaromaticas.pt/o-cantinho/
Andava já há algumas semanas para ir ao Cantinho comprar uns vasos de aromáticas para colocar no quintal, quando numa espreitadela rápida pelo site de modo a ver novamente a direcção  ( sim, que nas duas vezes em que já lá tinha ido andei  perdida!!!) Li que esta quinta-feira haveria colheita de perpétuas. Ena, não iria perder esta oportunidade.


Assim que se entra na quinta apetece cantar a canção do Rui Veloso
Tília trevo e açafrão 
Erva pura pimentão 
Louro salsa e cidreira
Urze brava e dormideira
É esse conjunto de cheiros que se inala a cada passo. Todas as plantas aromáticas que possamos imaginar existem aqui em belos e cuidados canteiros.  Mais de 150 espécies, todas Bio.
Que fantástico projecto. Não  é  por acaso que esta é a única quinta urbana certificada como produção totalmente biológica desde as sementes ao produto final. E o seu mentor deve estar bem orgulhoso pelos prémios já ganhos. Luís Alves, o jovem empreendedor que sonhou um projecto sustentável já foi o responsável pelos jardins de Serralves, talvez isso explique a beleza de cada recanto...
E o amor à natureza aromatizada. Um amor que se continua a viver por aqui...
Uma herança inestimável às novas gerações . Mas  voltemos às perpétuas roxas, afinal foi por elas que esta tarde vim...


Que flores tão mágicas, pequenas e delicadas e grandes nos seus  poderes. Quem diria que estas herbáceas são anti-inflamatórios naturais e que são preciosas aliadas de cantores. Parece que esta infusão era uma das preferidas da Amália. Pena que não tenha podido experimentar a infusão do Cantinho!
Durante estas curtas horas de voluntariado na quinta tive o prazer de encontrar uma simpática e "experiente" companheira que me foi falando da sua magnífica experiência aqui pelo cantinho e de um grupo habitue com quem tem partilhado estes momentos tão tranquilizantes. O tempo passou rápido. A Tia Graça ( tia do engenheiro Luís, tia nossa também), uma delícia de senhora, que na sua simplicidade nos ensina a colher as flores e com gestos delicados nos envolve nestas tarefas, a horas nos fez terminar o trabalho e ainda posou connosco.

No final, na loja da quinta havia chá de Erva-príncipe e de amor perpétuo com biscoitinhos a esperar por nós. Ah, e a simpatia do Luís Alves que hoje fazia anos. Tivemos assim oportunidade de lhe dar os parabéns e desejar felicidades, que é aquilo que se espera deste projecto.
E agora enquanto escrevo este post saboreio com mais saber a infusão de perpétuas roxas com a esperança de regressar na próxima quinta-feira para continuar a ajudar na colheita.

quarta-feira, 21 de setembro de 2016

A ver o mar na esplanada da Praia da Luz...

As ondas quebravam uma a uma
Eu estava só com a areia e com a espuma
Do mar que cantava só para mim
Sophia de Mello Breyner Andersen

Agora que oficialmente o verão está a chegar ao fim, apetece apanhar os últimos raios de sol à beira-mar. Ficar a contemplar o mar, nas suas ondas mais ruidosas e constantes. A areia mais brilhante e desafogada de pessoas.
Apetece conversar e ficar a olhar...
A Foz abriga uma das mais belas esplanadas, de vista privilegiada com o mar a abrir o horizonte, nada melhor do que acabar a tarde ao ritmo de um longo por-de-sol. 
A esplanada da Praia da Luz é um dos locais mais bonitos e bem situados mesmo no coração da Foz, espaçosa e bem decorada, podemos almoçar no restaurante ou ficar ao sol num dos verdes sofás e tomar uma bebida. A decoração é muito agradável, tranquila e os tons pastel convidam a momentos de relaxamento.
Confesso que é uma das minhas esplanadas preferidas, mesmo de inverno. Gosto de vir até aqui nas manhãs de Domingo e ficar a ler o jornal com o vento frio a tocar a face. Por ora, a brisa é suave e calma. Respira-se mais devagar. Enche-se a alma.
Mas infelizmente o serviço aqui deixa muito a desejar. Mesmo numa tarde em que se contam pelos dedos os clientes, os empregados parecem baratas tontas, muito desorganizados...Quis uma bebida, fartei-me de acenar e nada! Tive de me levantar e abordar uma empregada que me disse que estava numa zona reservada. Espantada retorqui que não vi nenhum marcador a indicar reservado. Novo espanto! Afinal o colega ia nesse momento reservar aquela área para um grupo. Bem, mudei-me. Nova e demorada espera. Olho as meninas a divertirem-se e aguardo pacientemente.
Vale a pena apreciar o momento, saborear os raios que se acanham...
Esta  esplanada podia ser perfeita. É  só  mesmo organizar melhor o serviço,  foi difícil conseguir um fino para celebrar o momento! !!





terça-feira, 20 de setembro de 2016

A arte de bem receber: do porto tónico ao risotto de cogumelos

Agrada-me esta nova forma de receber amigos na cozinha e de ir degustando as entradas enquanto se prepara o prato principal. Felizmente vivemos numa era mais informal e longe vão os tempos em que convidar alguém para jantar em casa exigia um rígido protocolo cheio de etiqueta que só servia para colocar os anfitriões num stress e bastava para alterar a rotina da casa uns valentes dias antes do acontecimento. É assim que me lembro de alguns jantares de infância em casa dos meus pais.
Ainda bem que sou filósofa e que gosto da simplicidade dos encontros. Quando  planeei a minha cozinha pensei desde o início que teria de ter uma ilha para sentar os amigos. E foi isso que fizemos neste jantar.
Iniciámos as hostilidades gastronómicas com uma tábua de queijos, doce de abóbora caseiro, paté e um Porto tónico.
Para o cocktail  elegi um  Real Companhia Velha Malvasia que deitei sobre uma camada generosa de gelo, uma rodela de limão e umas folhas de hortelã, depois foi adicionar a água tónica e....brindar!
enquanto conversavamos vesti a pele e o avental, diga-se a bem da verdade, de chef e cozinhei um risotto de cogumelos portobello com gambas quase num piscar de olhos.
A terminar um saboroso cheesecake de frutos vermelhos da confeitaria Tavi.
E pronto, escusado será dizer que esta noite a dieta foi para o galheiro, mas todos os comensais ficaram bem servidos!!!



segunda-feira, 19 de setembro de 2016

Na livraria Lello com a minha amiga polaca!

"Os optimistas acreditam que este mundo é o melhor possível, ao passo que os pessimistas suspeitam que os optimistas podem estar certos... (...)Existe uma terceira categoria: pessoas com esperança !"
         Zygmunt Bauman
Ter uma amiga a visitar-me e pela primeira vez  no Porto é um duplo privilégio, pessoal e turístico,  pois tenho a oportunidade de a levar a conhecer a cidade, de ser a sua guia e de a conduzir pelos recantos da invicta. 
Comecei como boa anfitriã pela livraria Lello, a casa mãe dos escritores, ex-libris obrigatório de visita. Primeiro olhar sobre a beleza inconfundível da fachada neogótica com as suas duas pinturas, a arte e a ciência a ladearem a entrada. Depois da fila e de bilhete comprado entramos e somos de imediato engolidas pela multidão de turistas e pelo ruído poli linguístico. Estamos na editora de Eça de Queirós, Camilo de Castelo Branco, Antero de Quental e tantos outros grandes escritores admirados e publicados pelos irmãos unidos, António e José Lello os burgueses intelectuais que ainda em finais de séc. XIX (1894) compraram a antiga livraria Chardron com todo o seu espólio e começam a intervir no desenvolvimento cultural da cidade publicando as primeiras edições com a colaboração dos artistas plásticos republicanos que emergiam nessa altura.
 Estavam  certamente longe de imaginar que dois séculos depois a sua livraria se transformaria numa das mais reconhecidas em todo o mundo. Longe de imaginar os milhares de turistas a subirem a escadaria de carmim.
E aqui estamos nós a percorrer o palácio da memória. ...folheamos juntas livros e recordamos a nossa primeira feira do livro no Colégio em Luanda. A Natália foi o meu braço direito, podia dormir descansada pois, a área administrativa e financeira estava em boas mãos. Trabalhamos em conjunto e sempre nos demos bem, porque punhamos toda a nossa experiência e profissionalismo naquilo que fazíamos. É a isso que se chama dignidade no trabalho. Decus in labore, a insígnia que se vê entrelaçada no monograma no belíssimo vitral da Lello.
Este vitral que nunca tinha sido retirado até  aos finais de julho e que foi todo limpo e reabilitado a primeira vez para o lançamento mundial de "Harry Potter and the cursed child", a festa em que a Lello também participou.
É  fantástico estarmos aqui as duas, de novo, entre livros, afinal no nosso mundo.
 Falamos de histórias e de autores, escolhemos livros para as meninas, ainda posso ajudar a seleccionar algumas gramáticas de português para estrangeiros. Na Polónia há muitos interessados em aprender português, a Natália fala bem a língua, é só melhorar e poderá vir a ser tradutora como quer. Não tenho dúvidas que será uma boa tradutora.
Tal como o sociólogo polaco disse, somos pessoas com esperança!  E não fazemos parte da massa de consumo que só é capaz de manter relações líquidas! Até podemos pertencer ao grupo das excepções, e mesmo agora no mesmo continente mas separadas por alguns quilómetros de distância, somos ambas viciadas nas novas tecnologias e sabemos bem que com um click nos manteremos próximas.

saímos da Lello  mais felizes e pesadas. 
Agora  vamos calcorrear as ruas aos risos. Bem-vinda à cidade do Porto !!!






sexta-feira, 16 de setembro de 2016

Mercado do bom sucesso, eclairs....ou o melhor doce que o porto tem!....a pensar em ti amiga Isabel!

No  amor podemos substituir  uma pessoa  por outra, mas não  na amizade,
Porque  cada amigo tem  o seu  lugar e não  podemos substitui-lo.
    António  Lobo Antunes


Dia de chuva no porto, dia cinzento a pedir abrigo. Rumo ao Mercado do Bom Sucesso.
Por aqui perde-se o tempo, há  sempre pessoas e coisas diferentes,  e viajamos  por todo o país  através  dos sabores e das cores de cada região.
Por  aqui no norte já  começa  o frio, quando os trópicos  aquecem. Lembro-me de Angola  , do cheiro intenso da terra alaranjada  e das cores quentes. E sinto saudades,  é um  facto.  Sobretudo das pessoas  e de uma em especial, a minha amiga Isabel.
 Uma  daquelas  mulheres feitas de fibra e coragem, daquelas com quem rimos e choramos de um modo espontâneo, que não  douram pílulas,  mas que atiram as palavras certeiras, mesmo as mais duras de ouvir. Mulheres do norte, claro está!
Quis  a vida nos seus ramos por vezes inexplicáveis,  colocar-nos  no mesmo caminho! Em boa hora!

Durante o meu tempo de expatriada  foi a minha confidente, o ombro e o porto de abrigo nas horas duras de saudade, o empurrão  para a luta num quotidiano por vezes difícil,  a companheira das gargalhadas  e das vivências  mais genuínas. 
 vivemos no "MULEMBA RESORT " peripécias  que a memória  não  apagará.  Aliás,  "D. Isabella" como o  nosso  amigo francês  lhe chamava, era a alma ( e o general, diga-se a bem da verdade) da Mulemba.  E a D. Isabella  todos prestavam  vassalagem.  Tipo Branca de Neve e seus sete anões. Estão  a ver o filme?!   Sim, que na Mulemba  tínhamos o dengoso, o atchim, o feliz, o mestre, o zangado, o dunga e o sonecas. Eheheh...uns autênticos  cromos, todos sempre prontos a agradar a loura branca!; Na  verdade nada fazíamos  sem a sua aprovação,  ou pelo menos sem  a sua conivência.  E até  os menus tinham de ser do agrado da dama ( de ferro). E isso implicava sempre um prato farto, um vinho de categoria e  um  bom docinho ( ou vários. ...eheheh). 
 Por isso, agora se faz tão  presente o seu gosto tão  apurado, e, por aqui estaria nas suas " sete quintas". Ele há  marisco, bons vinhos, chás  para enfartamento, ervas e aromáticas  para qualquer tipo de maleita ou achaque, bom vinho para os brindes! Ah, e o melhor e mais famoso doce do Porto.

 Os  eclairs  da Leitaria  Quinta  do Paço.  
Aqueles que se desfazem na boca e que nos fazem lamber o chantili que se escorre e nos lambusa  o canto da cara.. E D. Isabella  lambona teria dificuldade em escolher: entre o tradicional de chocolate, o de caramelo, de frutos vermelhos, de chocolate branco, de café.  Ou de limão  para os dias mais azedos. Ui, e os de maracujá,  perfeição  agridoce. 


Só  nos imagino por aqui as duas a pavonear, cedendo a tão  irresistíveis  tentações  e a matarmos  o tempo e a distância à  velocidade galopante de quem come estes mini eclairs,  que é  o mesmo que dizer, de uma única  e intensa dentada! 
Amiga,  estou por aqui, no Porto, aparece quando quiseres, mas, vem! Vem só,  yah?!

quinta-feira, 15 de setembro de 2016

Graffitis ou a comunicabilidade na cidade!

Gosto de deambular  pela cidade. A pé  ou de carro, gosto de observar as mudanças,  o que flui, aquilo que se vai transformando.
Muitas vezes deparo-me com muros e fachadas grafitados. Gosto. Demoro-me a olhar, tento perceber a mensagem ou fico só  a admirar a criatividade.
Felizmente  vão  longe os tempos em que estes writers rabiscavam um chorrilho  de palavras mal amanhadas, mensagens negritadas, apenas.
Hoje há  mesmo espaços  criados para o efeito, muros que são  dados para livremente alguém  os potenciar. Pelo  Porto há  vários  desses espaços,  fachadas de prédios  que aguardam demolição  ou uma intervenção,  paredes cinzentas e degradadas que se vestem de cores e da imaginação  dos que abraçam  a street art. Há  até  alguns com nome como o mural da Leonesa.
E com muita expressividade! Mensagens  que articulam tradições,  costumes e símbolos  com uma nova apropriação. 

E a cidade  ganha vida! Afinal os medos, as conquistas, os anseios, os desejos fazem parte desse jogo identitário  que é  tão  próprio  de cada lugar.

Esta  forma de expressão  tão  fugaz e tão  viva está  tão  presente nas cidades europeias. E deixa marcas, traços na memória.  Quem já  teve oportunidade de admirar o mural que restou do muro de Berlim, não  esquece.  E é  tão  importante essa memória,  sobretudo agora que se fala em erguer novos muros. Julgo que deviam fazer uma visita guiada a certos políticos  a estes lugares, talvez aprendessem alguma coisa, pelo menos a terem um pouco mais de bom-senso e tolerância.  Talvez chegasse! E passear por Bruxelas com o Tim  Tim em tamanho XXXL Ou ver as paredes de museus londrinos grafitadas. Bem mais interessante do que ver a cidade a degradar-se.

Admiro  e fico grata aos que têm  coragem e criatividade para darem  cor às  paredes. E ainda bem que no Porto já  há  belos exemplares. Vale a pena procurar e olhar para  estes quadros inusitados  e inesperados. Amanhã  podem não  estar lá.


quarta-feira, 14 de setembro de 2016

Amigos, amigos, no tempo dos figos!

-Verdes figueiras  Soluçantes nos caminhos!
Vos sois odiadas desde os  seculos avós
Em vossos galhos nunca as aves fazem ninhos
Os noivos fogem de se amar ao pé  de vós !
    António  Nobre, Só

Aqui no quintal também  há  uma figueira. E é  bem querida por nós.  Talvez por isso, tem sido bem generosa connosco. Este Verão,  em particular.
Estava carregadinha, mas como vos disse esta noite choveu muito, também  fez vento.  Resultado, acabei a manhã  a apanhar figos! E ainda assim, a maioria já  estava no chão!

Quando há  abundância  há  que partilhar! Corri a vizinhança a distribuir  figos....eheheh. Por aqui quase todos têm  quintal. As senhoras mesmo já  bem entradas na idade gostam da terra e gostam também  de dar. Vim para casa com um molho de espinafres, salsa e ainda uma tigela de tomate cereja.
De facto, quem tem figos tem amigos.
Bem, mesmo dando às  vizinhas ainda sobejam  figos. Vou fazer doce de Figo.


Estou estafada. Manhã  nas lides hortícolas,  tarde na cozinha. Ainda tenho reunião  de pais no colégio  da B.



Não  se apoquentem, antes de me ir arranjar e sair, tenho de preparar mais duas covetes de figos para levar a duas mães  amigas. Ah, já  sei, também  tenho de vos deixar a receitinha do meu doce. Ok, aqui vai:
Doce de figo e gengibre
Ingredientes
- 1 kg de figos
- 600 grs. de  açúcar  amarelo
- 1 pau de canela
-1 colher de café  de gengibre em pó.
Lavam-se os figos, tira-se-lhes o pé,  partem-se em quatro pedaços.  Adiciona-se o açúcar,  a canela e o gengibre. Coloca-se tudo numa panela e vai ao lume, mais ou menos 45 min. De  quando em vez mexer com colher-de-pau.
 Por fim triturar  com a varinha mágica.
Agora é  só  encher os frascos e arrolhar bem.

Dica em relação aos frascos em relação  aos frascos
Esterilizam-se préviamente  numa panela com água  a ferver durante 10 min. Ainda quentes encher com o doce. Depois de bem apertada a tampa mergulha-los de cabeça  para baixo  num recipiente  com água  quente para criar vácuo.
Posso garantir-vos que faço  sempre assim com todos os doces e aguentam-se meses sem se estragarem.