sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

Terminal de cruzeiros do Porto de Leixões uma pérola de design arquitectónico português

É sem dúvida uma das últimas obras de arquitectura portuguesa e também das mais belas. Falo do terminal de cruzeiros do Porto de Leixões que tive o prazer de visitar com o grupo da maltaromatica.
Este edifício é um projecto da APDL-  Administração dos Portos do Douro, Leixões e Viana do Castelo e tem a assinatura do arquitecto e docente da FAUP, Luis Pedro Silva.

Pretende afirmar-se como importante porta de entrada de turistas no Porto e permite acolher cruzeiros até 320m de comprimento. Em ano e meio de existência já possibilitou escala a quase cem mil turistas, maioritariamente de nacionalidades britânica, alemã e americana.
No piso zero encontra-se a recepção e uma área de serviços da alfândega e sef. No átrio principal, todo iluminado por luz natural inicia-se uma rampa em espiral que sobe por todo o edifício até à cobertura. Por baixo encontra-se um bioterio que se espera em breve poder ser observado a partir de um vidro do átrio.

Seguimos ao piso 1 onde se encontra toda a logística de embarque e desembarque de passageiros, passando pela área de controlo abre-se uma ligação directa à manga fixa e à manga móvel para acesso aos navios.


Da manga pode observar-se o Porto de Leixões e um pequeno porto de recreio com capacidade para 170 embarcações que também será aberto em breve.
E continuando pela rampa em espiral acedemos ao CIIMAR - centro interdisciplinar de investigação Marinha da Universidade do Porto onde se encontram alojadas em laboratórios e gabinetes técnicos várias unidades de investigação desde a biologia à robótica. Aqui trabalham diariamente mais de duas centenas de investigadores.


O último piso está reservado a eventos, dispõe de auditório e restaurante e será o espaço social e público por excelência quando este terminal se abrir futuramente ao público.

E daqui se acede a um dos espaços mais arrojado e belo desta obra, uma parede inclinada de 14 metros em forma de anfiteatro que se abre a uma das mais deslumbrantes vistas sobre o oceano.

O arquitecto foi feliz na obra! Um edifício concebido a partir de quatro braços ou quiçá 4 tentáculos que se abrem e expandem ao mar, integralmente português desde a concepção aos materiais, merecia mesmo ser premiado. Daí, que em apenas ano e meio de existência já tenha ganho 3!!!! Título de "Melhor Porto do Ano" em 2015. Prémio de " Arquitectura - edifícios Comerciais ou Institucionais com mais de 1000 m2 e Prémio internacional de arquitectura e design da " AZAwards". É que a par da dimensão da obra, realça a luminosidade, a magnífica interligação entre os diferentes pisos pela rampa em espiral sob a grande clarabóia central e o design do mobiliário e da iluminação.
Mas a cereja em cima do bolo são mesmo os azulejos. Ou melhor, por todo o edifício quer no interior quer no exterior. Azulejos da Vista Alegre, colocados manualmente por cerca de 40 homens e que permitem refratar a luz de modos diversos criando ilusões ópticas de cor variável de acordo com o clima, a hora do dia e a nossa perspectiva. Admirável!  Perto de um milhão de azulejos a tentar recriar a ideia de escamas....e de se ficar perplexa!!


 Esta visita vale mesmo a pena!!! No meu caso foi ainda mais intensa e divertida, porque fui com um grupo de quem gosto muito - maltaromatica. Desta vez éramos 33 magníficos guiados pelo Nuno Miranda. Fica nota 20 para o Carlos Vieira pela organização. E um bem-haja muito grande à Lia Ribeiro porque sem as suas fotos este post não faria juz ao edifício nem à visita! Eheheheh



quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

Kossoy vs Castelo Branco ou falemos de Amor!

Igual, sim, que o amor profundo,
Como foi  na terra o meu,
Não expira, é sempre vivo,
Sempre ardente e progressivo
Em perpétuo amor do céu. "
Camilo Castelo Branco in " Carta a Ana Plácido " (1858)
Depois desta carta, Ana Plácido e Camilo de Castelo Branco fugiram e viveram juntos o seu amor em Lisboa e no Porto. Até ao dia 6 de Junho de 1860, quando Ana Plácido foi presa, acusada de adultério, na Cadeia da Relação....no dia 1 de Outubro, Camilo entregou-se também à prisão, relatando sobre esse facto, o seguinte: "Fui ao tribunal do crime, pedi um mandado de prisão  mediante o qual obtive do carcereiro licença de recolher-me nas masmorras altas da Relação."
Este edifício trapezoidal do século XVIII, partilhado quase equitativamente entre o Tribunal da Relação e a Cadeia, testemunhou a pena de Amor sofrida por Ana e Camilo, também viu emergir um dos romances mais lido e a maior obra de Camilo, Amor de Perdição! 
Enquanto Ana Plácido permanecia na ala das mulheres, o estatuto social de Camilo permitiu-lhe ir para o último piso onde ficavam os quartos da Malta, que eram prisões individuais concebidas para as " pessoas de condição".
Em abril de 1974 a Cadeia foi desactivada e nos anos 80 sofreu várias remodelações. No ano 2000 sofreu a última intervenção com um projecto dos arquitectos Souto Moura e Humberto Vieira, de modo a alojar dignamente o Centro Português de Fotografia.
E quis a sorte ou o acaso também acolher aqui, nos últimos meses, a exposição do artista paulista Leonardo Kossoy " Only You".
Uma exposição que chama a atenção para as possibilidades e desafios dos relacionamentos a dois!
Um trabalho cheio de questionamentos e, que permite reflectir sobre o Amor, a relação com o outro, com o corpo...

Neste espaço austero, sente-se o peso da pedra e parece que a humidade e a escuridão realçam ainda mais os corpos desnudados... a sós frente ao erotismo das fotos, somos obrigados a reflectir sobre o desejo e a complexidade da intimidade.

Bataille continua actual, o erotismo traz-nos a problemática da continuidade e da descontinuidade, e, é sem dúvida o maior e o mais sublime problema humano, por que implica a identidade.
Lou-Andreas Salomé tinha já compreendido bem esta questão e clarificou-a quando defendeu que o verdadeiro conflito era o da mulher se fundir com o amado mas preservando a sua identidade..  Sem, dúvida que esta mulher inteligente soube bem do que falava!
E eu aqui a divagar frente a estas fotos!
Durante este percurso ocorrem-me outros autores, tantos escritos sobre o desejo e o amor! Mas, uma certeza, sem amor a vida seria vazia, um sem sentido. Felizmente que há muito que este caminho é feito a dois. Um amor que tem sabido contornar o tempo. E as madrugadas continuam, continuamos a despertar juntos. O Amor também é esta curvatura que amadurece e acalma.
Saio da exposição até ao largo onde o beijo eternizado me parece ainda mais luminoso e intenso.




segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

Janeiro no Jardim João Chagas ou será Jardim da Cordoaria?!

"A lei do universo baseia-se sobre o concurso destes dois agentes: a luta pela vida e a selecção natural. A luta pela vida é o estado permanente de todos os seres, para os quais a criação é uma eterna batalha. A sorte do conflito decide-a a selecção natural."
      Ramalho Ortigão  in " As Farpas".
Ramalho Ortigão não escreveu esta frase a pensar no jardim da Cordoaria e o seu busto ainda aqui nem estava por essa altura. Porém, é um facto que graças à selecção natural este jardim tem sobrevivido ao tempo, à força da natureza e até ao Cerco do Porto, e, continua actualmente a afirmar-se com vida no centro da cidade do Porto.
Quando no período seiscentista D. Filipe II criou a alameda da Cordoaria, certamente não imaginava que este espaço verde se transformasse e se afirmasse num dos jardins mais antigos e emblemáticos do Porto, já no séc XXI.
A testemunha mais curiosa de todas as mutações é um olmo que o povo chamou " árvore da forca" e que sobreviveu até à década de 80 do século XX, escapando ao abate das árvores da Cordoaria durante o Cerco do Porto (1832-1833). Aguentou duas tempestades naturais e nunca serviu para enforcar ninguém. ...eheheh
Por falar em tempestades, a revolução de 2001 que quase toda a cidade sofreu para se transformar em Capital da Cultura, também  virou a estátua de Ramalho Ortigão, que nessa altura ficou de costas viradas ao jardim para contemplar o outro lado do Campo Mártires da Pátria com as igrejas dos Carmelitos e do Carmo ao fundo.
Mas, desde que o alemão Emile David dirigiu os trabalhos deste jardim público que ele passou a ter lago e coreto, bem como diversas estátuas tais como, o busto do escritor António Nobre e a belíssima escultura de Teixeira Lopes "a Flora".
coreto

vista do jardim com o busto de António Nobre

A Flora

o lago
 Quando em 2001, no âmbito de Porto Capital Europeia da Cultura se renovou novamente o jardim com os arquitectos  paisagistas João Nunes e Carlos Ribas, Camilo Cortesão e Merces Vieira ganhou-se em termos artísticos, pois, novas estátuas chegaram. Da Praça da República veio a escultura de Fernandes de Sá, " o rapto de Ganimedes" e foi instalado o conjunto das quatro bancadas denominadas " Treze a rir uns dos outros" do madrileno Juan Munoz...



A alameda dos Plátanos, a antiquíssima Sequoia e todas estas obras de arte perpetuam a vida deste jardim, que é palco diário de muitas estórias e visitas, serve para a população e para os turistas, vivem-se aqui amores e desencontros, toca-se música e lê-se nos seus bancos de granito! Afinal, este jardim continua vivo e aqui também se sentem as mudanças da cidade.
Só julgo que o povo tem razão, seria melhor mudar-lhe o nome para jardim da Cordoaria, pois, é assim que é popularmente conhecido.

sábado, 14 de janeiro de 2017

Dia de reis ou o encerrar da quadra natalícia!

Desde pequena que conheço a lenda dos reis magos! Os reis que vieram do Oriente guiados por uma estrela para visitarem e presentearem o Menino que tinha nascido para salvar a humanidade. Os três presentes oferecidos foram: ouro, incenso e mirra.
Esta é a razão porque o Dia de Reis é comemorado na maioria dos países. Depois, como em tudo, cada povo apropria-se culturalmente da festa e diversificam-se as tradições.
Para mim, este sempre foi o dia em que se comia bolo Rei e se desfaziam e guardavam todos os enfeites de Natal. Pronto, dito de outra forma era o " cair do pano", encerravam-se as festividades ligadas ao Natal e Ano Novo.
E foi sempre assim, até ter conhecido o tripeiro com quem constituí família. Em casa dele havia uma tradição! Na noite de dia 5 de Janeiro havia novamente consoada, com bacalhau, rabanadas e bolo-rei....Ora, eu que nem gosto nada de festas, pareceu-me desde logo muito bem esta forma de encerrarmos a quadra natalícia...eheheh...pronto! É assim, agora aqui em casa, lá volto pra cozinha na tarde de dia 5 e nessa noite voltamos ao jantar de gala!
De novo, o bacalhau com batatas que vieram da beira, pencas e grelos da Póvoa de Varzim, ovos caseiros que uma vizinha ofereceu, cenouras do mercado do Bolhão e aquele molho fervido que o chef aqui de casa prepara tão bem. É azeite aromatizado com alho, louro, pimenta e cominhos que depois de fervido perfuma e torna muito especial o prato de bacalhau.
Tudo a preceito, que festa é festa!
No fim, as sobremesas da época: rabanadas, aletria e bolo-rei!

Uma desgraça calórica. A última desta " fornada"!
E como se não fossem estes doces o bastante, este ano pedi à minha sogra que me fizesse pudim abade de priscos!!!! Uma bomba de prazer.....e claro, havia que se encontrar solução para as quinze claras de ovos, este ano substituiu-se o molotoff por bolo prata! Mas confesso-vos que não fiquei grande fã....
E pronto, depois dos Reis é hora de desmontar a árvore, desligar as luzes, guardar tudo até ao próximo Dezembro!
Que assim seja!

quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

De Montemuro ao Douro: o primeiro passeio do novo ano!

" Do pinhão,  que um pé-de-vento arrancou ao dormitório da pinha- mãe, e da bolota, que a ave deixou cair no solo, repetido o acto mil vezes, gerou-se a floresta. Acudiram os pássaros...de permeio desabrocharam cardos...Vieram os lobos, os javalis, os zagais com os gados, a infinita criação rusticana."
Aquilino Ribeiro, A casa grande de Romarigaes.

Tarde de sol espojado nesta serra, ora agreste e rochosa, ora de recantos verdejantes com cascatas de água a galgar terra. Estamos nas terras de demo! Aquilino soube amar estas terras. Faltam os lobos. Subimos e descemos a serra sem os ver...avistamos as belas vacas arouquenses, rebanhos e pastores com  seus cajados, duas mulheres com molhos de lenha à cabeça nas suas capuxinhas em burel. Está frio, é janeiro na serra.
Chegamos à Gralheira e espera-nos um bom repasto.
Entramos no Recanto dos Carvalhos. Um restaurante tipicamente beirão.
Depois do queijo da serra com mel e de uma chouriça bem assada, vem a sopa à antiga, sopa de legumes fumegante para aquecer, que o frio tolhia-nos o corpo....Em seguida a posta à recanto com umas tenras e saborosas batatas a murro e o javali em cama de castanhas.

Almoço tardio para saborear lentamente, cadência da conversa e dos brindes com propósitos para o novo ano.
A beira sabe receber e a sua gastronomia traz à mesa o melhor destas terras. Saímos com estômago bem aconchegado e a pedir passeio.

Descemos a Cinfães, não sem antes passarmos numa das cascatas do Bestança. Um quadro que a natureza nos quis oferecer...


 A pureza da água e a força da natureza com esta flora selvagem faz-nos lembrar o tormento telúrico da serra, como o descreveu Aquilino em Geografia Sentimental. É de uma assombrosa beleza ver as aldeias a pontearem a serra...
E em Cinfães temos mesmo de aceitar o frio, mas há que caminhar um pouco para digerir o banquete.eheheh


Quase ao crepúsculo já só deu para uma volta rápida pelo centro e uma espreitadela ao museu Serpa Pinto, o explorador de África que mostrou bem a raça deste povo bárbaro.
 Que pena no inverno os dias serem tão curtos....quando descemos ao Douro já o sol se tinha escondido, perdemos uma boa parte da beleza, mas ganhámos a vontade de voltarmos novamente...
Porque à  beira e ao Douro volta-se sempre. É preciso lembrar as raízes e espevitar o olhar por estas terras, não vão reaparecer os faunos ou os lobos!!!!