sexta-feira, 7 de julho de 2017

O fim-de-semana da maratona de Piano do Porto que nos encheu as medidas!

"Existem certas alturas em que me sinto mais inspirado, preenchido com uma força brutal que me obriga a ouvir a minha voz interior, e é nessa altura que eu sinto mais que nunca a necessidade de um piano "
             Fryderyk Chopin

 
Com o objectivo de prestar tributo aos 100 anos de vida e de actividade pedagógica e artística do Conservatório de Música do Porto, no passado fim-de-semama decorreu a 2ª maratona de 24h de Piano - o Piano Porto 2017, e claro que nós não quisemos perder a oportunidade de assistir a alguns dos mini concertos deste evento.
Receando uma multidão no conservatório para ouvir a sessão de abertura com Luísa Tender seguida da interpretação de Pedro Burmester, que a par de mais cinco pianistas consagrados, os quais foram ou alunos ou professores deste conservatório e que se destacavam nesta edição, optámos por começar a assistir ao evento na Estação de Metro do Campo 24 de Agosto. A nossa viagem musical não poderia começar de melhor forma. Num fim-de-semana como este, cheio de eventos na Invicta, cruzamos no mesmo espaço o Piano Porto com a Open House Porto. Ao som de Schumann e Prokofiev eximiamente interpretados por Catarina de Sousa Carneiro Trindade da Universidade do Minho pudemos calmamente admirar um dos mais belos espaços desta Estação de Metro da autoria de Eduardo Souto Moura.
Nesta estação de metro edificada num lugar que anteriormente se chamava o Poço das Patas, foi descoberto um achado arqueológico tão interessante quão curioso - a fonte de Mijavelhas. Ao que se sabe durante a idade média este local denominava-se Campo de Mijavelhas; depois passou a chamar-se Poço das Patas devido às características alagadiças do terreno que originava a formação de grandes poças que as “patas” frequentavam . Em 1833, denominava-se Campo da Feira do Gado porque ali se realizava um mercado de gado bovino; Só a partir dos anos 60 por decisão camarária, foi designado Campo 24 de Agosto.
Ora, no passado Sábado aqueles que viajavam de Metro e saíam nesta estação, não só seriam surpreendidos pela imponente Fonte de Mijavelhas, tão bem integrada no desenho de Souto Moura, como ainda pelos melodiosos sons dos pianistas que aqui actuaram e dos quais destacamos Luana Ramos, João Mendes Oliveira, Eugénia Viana, Afonso Areia e um conjunto de pequenos pianistas do CMP a fazerem lembrar-nos a esperança de novos talentos emergentes desta casa.



 
Seguindo o percurso musical pela cidade "traçado" pela prof.ª Lígia Madeira, mudamo-nos para a emblemática Igreja dos Clérigos. A par de Luísa Tender, Madalena Soveral, Pedro Burmester, Fausto Neves, Davorin Dolinsek, Ricardo Alves - os pianistas destacados neste conjunto de 100 pianistas que participaram na maratona; a  Igreja dos Clérigos acolhía o evento no sábado, dia 1 de julho das 18h00 às 21h00, com o consagrado pianista Paulo Gomes.


O pianista e compositor brindou-nos durante quase uma hora com temas da sua autoria  de Matt Dennis. E a Igreja encheu-se para o ouvir...a seguir Bach, Burgmüller e Grieg saíram das talentosas mãos de Sofia Alves Thomas e  Beethoven e Chopin foram interpretados magnificamente pela pequena Matilde Bezerra Bastos.
 

 




 Depois desta intensa tarde de piano Pai e filha devem ter sentido o "bichinho" e já que  não podiam participar na maratona, não se fizeram rogados a experimentar o piano colocado à disposição de quem o quiser tocar nos antigos Armazéns do Castelo, agora  transformados no “novo projecto multidisciplinar, independente e com identidade própria” onde a Livraria Lello quer projectar um espaço apenas com produtos portugueses como livros, artigos 100% naturais, brinquedos artesanais e merchandising exclusivo da livraria, entre outros.



Pai e filha brindaram com Chopin alguns dos turistas que em final de tarde por ali se encontravam e eu não perdi oportunidade de registar este momento. Que giro itinerário musical para uma tarde quente de sábado e que bom programa em família...
Parabéns ao Conservatório de Música do Porto! Parabéns a todos os músicos e pianistas que organizaram e participaram nesta maratona Piano Porto 2017!















sexta-feira, 30 de junho de 2017

Dia de S. Pedro na Afurada entre amigos a escutar Pedro, o marinheiro!


O espraiado imenso... A areia de oiro sem fim, desmaiada pouco e pouco e envolta
no fundo em pó das ondas – o mar infinito, verde-escuro, verde-claro, rolos sobre rolos,
 
por fim, num côncavo junto ao cabo, desfazendo-se em espuma e brancura. Ao norte
névoa leitosa e viva, que sobe ao ar como um grande clarão branco. Água sem limites –
céu sem limites – areia sem limites – e a voz imensa, o lamento eterno, dia e noite, mais
baixo, mais alto, mas que nunca cessa de pregar...
              Raul Brandão, Os Pescadores

Raúl Brandão captou bem a alma e a identidade do povo pescador. Do nosso povo. E a Afurada é uma comunidade piscatória. Desde os primórdios... Em dia de S. Pedro impunha-se romaria até esta Freguesia. Como era quinta-feira e dia de voluntariado no Cantinho das Aromáticas, fomos com o grupo da maltaromática almoçar à Afurada na companhia do marinheiro Manuel Pedro.


Mas, sobre este marinheiro já conversamos (que a conversa é longa e divertida)...falemos previamente da Afurada!














A localização da Afurada, virada à foz do rio com escarpas na outra extremidade, levou a que a Afurada visse no Douro o seu principal veículo de comunicação com o mundo exterior. A região conta com um longo historial no que à sua formação diz respeito, nem sempre sendo claras as referências que lhe são feitas. De nome primitivo Furada. Só no século XIII, concretamente no ano de 1255, com o foral de Gaia doado pelo rei D. Afonso III (r.1248 - 1279), e no ano de 1288 com o foral de D. Dinis (r.1279-1325) e D. Isabel (1270-1336), surgem as primeiras referências concretas em relação à atividade deste local, sendo bastante explícito no que diz respeito à exploração dos recursos marinhos. Mais tarde, no foral de 1518 D. Manuel I (r.1495-1521) estabelecem-se rendas e direitos sociais.
Desde sempre, contudo, não restam dúvidas que era um areal próprio para a pesca à varga. Mas só nasceu como povoação em finais do século XIX, sendo os seus primeiros habitantes oriundos das praias de Espinho, Ovar, Furadouro e Murtosa, que aqui chegados se dedicam a várias fainas de pesca, sendo a mesma a quase e única actividade económica do lugar de Afurada, da freguesia de Santa Marinha.
Afurada, começa então a ser bastante conhecida pela sua intensa actividade piscatória com fama predominante para a pesca da sardinha, com a construção das primeiras traineiras, e pesca do sável e lampreia, passando a ser o principal centro piscatório do concelho de Vila Nova de Gaia.

A peculiaridade dos homens e mulheres da faina está bem presente nesta comunidade (felizmente) e percebe-se isso facilmente com uma visita ao Centro  Interpretativo do Património da Afurada  http://www.parquebiologico.pt/doc.php?id=195 (sobre o CIPA - centro Interpretativo da Afurada, realço o espólio, a simpatia e bom acolhimento dos seus funcionários e a organização do espaço. Porém, fica uma nota: seria importante possuir um site próprio e devidamente atualizado).
Bem, agora que estamos devidamente situados voltemos ao dia de S. Pedro. As festas em honra de S. Pedro na Afurada remontam ao início do séc. XX.
Em 1908, quando a capela é dada por concluída, realiza-se a primeira festa. Nesse primeiro ano as festividades tiveram como ponto alto a eucaristia em honra de S. Pedro, celebrada pelo pároco de então. A procissão saiu pela primeira vez da igreja paroquial de Stª. Marinha, na altura sede de freguesia. Os andores foram transportados em barcos, rio abaixo, até ao cais de desembarque. Nos anos seguintes, a realização das festas continuou com periodicidade anual, a cargo da comissão administrativa da capela.
Desde 2012, consta do património material das festividades, um andor com rede idealizado pela artista plástica Joana Vasconcelos para enaltecer do patrono da freguesia. Executada por pescadores da Afurada, de acordo com as técnicas que tecem as redes de pesca, a malha dourada abre-se simbolicamente, cobrindo os pescadores que transportam o andor durante a procissão. Decorada com a iconografia de São Pedro, a rede está conotada com a proteção celestial dourada que envolve os carregadores do andor, escudando-os da má fortuna e das intempéries que atormentam a vida de quem vive do mar. Talvez por isso, haja tanta competição para carregar o andor na procissão. Mas essas "lutas", têm os naturais da Afurada de fazer com a Dona Ana do Mar, pois é ela quem tem a responsabilidade de organizar a procissão....
 
Manda a tradição que no dia de S. Pedro se comam as sardinhas com broa de Avintes, mas o nosso grupo de convivas optou por outro repasto num dos mais famosos restaurantes da Afurada. E digo, com pena minha, não foi num restaurante típico como desejaria, mas infelizmente o grupo era demasiado grande para se juntar numa "tasquinha". Ganha-se em número de convivas perde-se na qualidade e genuinidade da gastronomia!!! Não se pode ter tudo...





















Findo o almoço lá fomos até ao CIPA para ouvir o Manuel
Pedro. Tal como muitos fez-se à vida longe da sua terra. Não emigrou como alguns amigos e vizinhos para a Alemanha, mas durante mais de 26 anos trabalhou para e com Alemães nos cruzeiros.
Uma vida cheia. Muitas histórias para contar.
A imensidão de mar navegado... seis meses no mar, seis meses em terra.
Tal como Brandão, também Manuel Pedro deve ter vivido intensamente cada ida ao mar...
Se fecho os olhos sinto logo esta mão áspera e enorme que me leva na noite húmida e cerrada. Não vejo o mar, mas envolve-me e penetra-me o hálito salgado e ouço-lhe ao longe o clamor. No primeiro plano ecoa o desabar ininterrupto, depois, lá ao fundo distingo outra voz mais rouca e para além um lamento que não cessa, donde irrompe de quando em quando um grito.( Raúl Brandão, os Pescadores).


Na tarde  de S. Pedro fez magia e falou-nos de nós. Nós, voltas, falcaças, mãos, costuras, botões, pontos, pinhas, gachetas e cochins, são trabalhos da arte de marinheiro. O nó mais antigo que se conhece foi descoberto em 1923 numa turfeira na Finlândia e cientificamente datado de 7.200 AC.
Ali estivemos a escutar e a ver o Pedro executar com a mestria de uma vida um sem número de nós.
Enquanto isso, invejava-lhe o feito de conhecer todos os países que o mar lhe permitiu...
Ora, os países que não são banhados  pelo mar são pouco mais de trinta, países costeiros são mais de 150. Contas feitas, este marinheiro conhece quase todo o planeta, já deu várias voltas ao mundo e agora, ali em plena Afurada trouxe-nos o mar. Até parecia simples o que fazia e dizia. Ficaria a ouvi-lo umas quantas horas mais...como um búzio a falar do mar, a trata-lo por tu.
Que vida tão cheia, a fazer jus às gentes da Afurada que são hospitaleiros, acolhedores e simples...
Parece que foram escritas para  o Manuel Pedro as palavras de Raúl Brandão:
Basta pegar num velho búzio para se perceber distintamente a grande voz do mar.

Criou-se com ele e guardou-a para sempre.














Que diferente e rica esta tarde de S. Pedro na Afurada com tantos amigos e o Pedro que não é Santo a encher-nos a alma, a fazer-nos rir, a distribuir magia...com tanta beleza e simplicidade! Gosto cada vez mais da Afurada e deste povo da faina e do mar...




segunda-feira, 26 de junho de 2017

Domingar em Serralves em Festa!

A arte e nada mais que a arte! Ela é a grande possibilitadora da vida,a grande aliciadora da vida, o grande estimulante da vida".
          Friedrich Nietzsche
 Nietzsche acreditava que somente a arte poderia oferecer aos homens força e capacidade para enfrentar as dores da vida, fazendo-os "dizer sim" à vida. O seu elogio à arte remete-nos para a Grécia pré-socrática da tragédia antiga onde as forças apolíneas e dionisíacas se unem para desenvolver a arte e dessa forma possibilitarem o equilíbrio entre ilusão e a verdade, entre aparência e a essência.
Talvez mais do que nunca precisamos da arte como o filósofo a entendia....para que a realidade não nos esmague nem paralise.
Felizmente este fim-de-semana (2,3 e 4 de Junho) aqui pelo Porto os eventos culturais e artísticos abundam! E nós estamos felizes com mais uma edição de Serralves em festa!

Esta é a 14a edição, desta vez com 50h non stop de actividades. Começou no final da tarde de sexta-feira!
A nossa agenda só nos permitiu vir no Domingo, 4 de Junho! Mas viemos e uma vez mais divertimo-nos, relaxamos e passamos um dia bem agradável em família! Ao que consta, nós e mais 200 mil pessoas! Uma verdadeira festa para o pooooovinhoooo!
Quando se entra nesta festa, há que descer rapidamente a alameda dos Liquidâmbares para na parterre Central nos sentarmos a estudar o programa e tomar decisões sobre o que ver e ouvir! Estava já vista a exposição de Miró, por isso uma ida à casa de Serralves estava posta de parte. Optamos por nos dirigir ao Ténis para ouvir Calcutá, o projecto a solo de Teresa Castro, guitarrista e vocalista dos Mighty Sands. Daí uma passagem rápida pela Casa de Chá que nos últimos tempos tem estado desativada!
Procuramos descansar um pouco e afastarmo-nos da confusão no Roseiral, onde a B. aproveitou para fazer umas fotos.

 
Depois fomos tomar os nossos lugares junto ao Museu para assistir ao espetáculo a Dança do Homem-Palco que o Festival Internacional de Marionetas do Porto - FIMP preparou para este evento. É a estreia absoluta e não queremos perder esta actividade que Igor Gandra preparou. O conceito é o de uma trupe de bonecreiros que se instala numa praça e faz dela o seu palco. Na verdade, o seu corpo é o seu teatro e o seu teatro é o seu corpo. Começam por tentar conquistar o melhor lugar, no sentido de obter a atenção dos espectadores – este jogo geo-estratégico inicial produz mesmo algumas ruidosas disputas que as marionetas de luva protagonizam com bravura - esta luta tem mais de berreiro de feira do que de orgulho guerreiro.



Em seguida descemos ao Prado, não sem que antes fizéssemos uma paragem para um pequeno lanche.
Junto à horta pedagógica encontravam-se instaladas as Oficinas.
Nesta oficina fomos criar chapéus originais para dar vida aos novos Guardiões da Floresta de Serralves. Com materiais naturais, reinventados através de várias intervenções, nesta oficina cada Guardião terá o seu chapéu!
A B. fez um chapéu giríssimo! Está uma autêntica guardiã da Floresta!


Em seguida aproveitou ainda para pintar num mural e por fim ouvimos mais um espetáculo sentadas no Prado! Foi um Domingo em cheio! Para o ano cá estaremos....Viva Serralves!